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Uma carta de Barcelona, por Enrique Vila-Matas

Uma carta de Barcelona

Enrique Vila-Matas

Meu caro amigo,

Ouvi no rádio uma amiga comum – você sabe de quem estou falando – dizer que uma coisa que tinha impressionado todo mundo era que aquilo que víamos pela televisão e nos parecia tão distante (a epidemia na China), de repente estava à nossa frente. Isso me fez lembrar Empty house of the stare (“Casa vazia do estorninho”), a exposição de janeiro desse ano de Tom Mccarthy na Whitechapel Gallery de Londres, exposição que um contratempo de última hora impediu você de ver, em que o romancista britânico mostrava que nossos sistemas de controle e de supervisão das massas, que pareciam seguramente sólidos, poderiam, a qualquer momento, desabar, porque eles tinham falhas.

De fato, dizia McCarthy, o problema do sistema no qual estávamos instalados era que ele comportava erros que o tornavam mais terrível. Uma das imagens mais inquietantes da exposição na Whitechapel era aquele buffer, uma espécie de pequeno disco que gira às vezes na tela do nosso computador dando a entender que alguma coisa não funciona, não está conectado, o que nos angustia terrivelmente. Sei que mentalmente a lenta chegada do vírus no nosso país foi precedida para alguns de nós por uma imagem semelhante a desse bufferque girava sem parar, anunciando um desastre indefinido que, e estávamos longe de supor, seria a ruptura de todo o sistema, a ponto de nos recolher entre quatro paredes e nos proibir de pôr o nariz do lado de fora por muitos dias. Não acreditávamos nisso, mas foi o que aconteceu. E agora, diante dos meses que se anunciam, tomados de forte incerteza, só temos que confiar de forma talvez ilusória no que pode acontecer nas situações extremas em que tudo está em jogo enquanto se continua vivendo e escrevendo como se nada estivesse acontecendo.

Meu caro amigo, me permite prosseguir? Há pouco lembrei de uma passagem de Florence Delay, em A sedução breve, que acho muito bonita. Ela diz que as páginas que retornam em nossa memória quando não as lemos, as frases e as observações de outras pessoas que retornam como lembranças que não foram solicitadas, não pertencem apenas à literatura, mas fazem parte de nosso ser da mesma forma que nossos humores, e acabamos sempre tentando adivinhar por que elas insistem em nos fazer tirar sempre as mesmas cartas.

Tudo que retorna e que “insiste em cada um de nós” termina por constituir, diz Florence Delay, uma espécie de “família insistente” que, em alguns, opera como um agente secreto de sua vida. Nessa comunidade obsessiva e reconfortante da família insistente se infiltram, inevitavelmente, fragmentos escritos por nós mesmos. Foi o caso, há uns vinte anos, quando eu inseri em um livro sobre Paris uma lista sumária das coisas que para mim eram as razões primeiras do desespero. Ao longo do tempo, com mais e mais insistência, sinto o retorno desse inventário tão familiar para mim, que num dia distante eu registrei no papel e que não exige, apesar do tempo que passou, nenhuma modificação: a inconstância do amor; a fragilidade de nosso corpo; a terrível mesquinharia que domina a vida social; a solidão trágica na qual, no fundo, todos vivemos; os reveses da amizade; a monotonia que acompanha o hábito de viver.

A pandemia atual tem a ver com o segundo ponto, a fragilidade de nosso corpo, mas é evidente que esse está ligado a todos os outros pontos, inclusive ao último, que evoca a monotonia associada ao hábito de viver; para dizer a verdade, esse sentimento de monotonia pode inclusive parecer ridículo quando se vive, como nesses dias, um acentuado risco de morte, apesar de que o mais provável é que iremos continuar desperdiçando boa parte de nossa vida em um monte de ocupações idiotas (por exemplo, a profusão de “diários de bordo da quarentena” adotados por nossos numerosos escritores “confinados”). Por que motivo perdemos todo esse tempo? Porque vivemos como se fôssemos viver para sempre, sem perder um minuto para nos lembrar que teremos que morrer, uma realidade subjacente à expressão de surpresa daqueles que confessam que não esperavam viver uma tragédia como essa, “tão violenta que afeta tantas pessoas”.

Tantas pessoas? Ela afeta a humanidade toda e é exatamente o que preocupa Rilke (em páginas da minha “família insistente”) na memorável abertura de Cadernos de Malte Laurids Brigge: “Então, é aqui que as pessoas vêm viver? Eu acreditaria, antes, que elas viessem aqui para morrer. Saí. Vi os hospitais. Vi um homem que cambaleava e caía ao chão. Um grupo se formou em torno dele, o que me poupou de ver o que se seguiu…”

Como um leitor de romances policiais, de humor detetivesco, tão frequente atualmente, leria essas linhas de Rilke? Esse leitor está habituado a ler com incredulidade, com uma suspeita tão particular que ele tem até dificuldade de acreditar em Cervantes – Será o assassino? – quando esse diz que não quer se lembrar da cidade da Mancha em que ocorre a ação. Na verdade, o leitor-detetive é capaz de tudo. Certamente, nas últimas semanas, o leitor-detetive se apagou diante do leitor pandêmico. Mesmo que o detetive continue presente – ele desconfia cada vez mais da narrativa oficial sobre o vírus, tão asséptica e burocratizada, cheia de gráficos, de picos e de porcentagens – , ele vê o pandêmico ganhar terreno; um gênero de leitor com que me identifico, pois nesses últimos tempos, devoro tudo que pode ser lido, oprimido pelo estresse mediático da crise sanitária. Ontem, por exemplo, li David Foster Wallace (“Para os jovens de hoje, os Toyota e os engarrafamentos fazem parte da realidade e não se pode literalmente imaginar a vida sem eles”), e fiquei espantado que DFW ousasse afirmar que não se podia imaginar a vida sem engarrafamentos, quando há semanas se prova o contrário.

E hoje, sem ir mais longe, abri o ensaio que Jordi Soler dedica às “microviagens” em seu maravilhoso livro Mapa secreto do bosque (“Carte secrète de la forêt”). Como leitor pandêmico, logo me senti à vontade. Porque Soler fala da pulsão atávica que sobrevive como um náufrago em nosso disco rígido, essa pulsão que levava nossos antepassados, há noventa mil anos, a explorar o entorno de suas cavernas e a se assegurar de que sua família tivesse uma noite tranquila. E Soler propõe, como antídoto para o grande deslocamento que em teoria poderia nos tornar mais esclarecidos, que nos dediquemos a fazer um mapa cujo centro seja a nossa casa, e começássemos a caminhar pelas ruas nos seus arredores, para reunir imagens da nossa própria vizinhança, para ver lugares que nunca tínhamos observado com a devida atenção. Em suma, Soler propõe que fundemos uma cartografia desse universo mínimo, cujo centro é o lugar onde moramos. Uma tarefa, eu pensei, que nesse momento, vivendo em pleno confinamento, talvez com uma saída semanal para as compras, seria para nós suficiente. Por que não? Uma injeção de humildade. Uma breve e razoavelmente humilde viagem. E afinal um passeio que poderia nos devolver a um ritmo de vida melhor do que levávamos quando íamos num pulo de avião até a Cochinchina.

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Enrique Vila-Matas (1948) é escritor espanhol, autor de obras como “Bartebly & companhia”, “A  viagem vertical”, “O mal de Montano” e “Doutor Pasavento”. Um dos mais celebrados e premiados autores contemporâneos de língua espanhola.

Texto publicado no jornal El país e no site A.O.C, em maio de 2020. Tradução de Eduardo Jardim.