O presente como uma máquina de fazer futuros, por Nurit Bensusan

O presente como uma máquina de fazer futuros
Nurit Bensusan
“O mundo está entrando em ‘uma nova fase’, em que grandes surtos de doenças mortais como ebola são o ‘novo normal’”. Essa foi a advertência da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante o último surto de ebola, na África, em junho do ano passado. Não se trata, evidentemente, de adivinhação. Circula, também, na internet, um vídeo onde o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, diz que, a cada ano, há maior probabilidade de novas epidemias. Também não se trata de adivinhação. Mas por que tantas epidemias?
Um dos motivos, certamente, é demográfico. A maior parte da população humana hoje vive em áreas urbanas e estima-se que 4 bilhões de pessoas vivam em 1% da massa terrestre do planeta. Ou seja, vivemos em grandes concentrações, onde agentes patológicos encontram condições para se espalhar. Outro motivo é a gigantesca circulação de bens, mercadorias e pessoas. Somente em 2019, as companhias aéreas transportaram cerca de 4,5 milhões de pessoas. Uma outra razão, ainda, tem relação com nossa crescente demanda por carne e as condições de produção de proteína animal. Fazendas onde os animais vivem confinados, em péssimas condições de higiene, acabam conduzindo ao surgimento de inúmeras epidemias de gripe entre humanos e entre animais.
Na pandemia nossa de cada dia, que nos prende em casa agora, talvez não fosse possível prever exatamente o que está acontecendo. Mas poderíamos ter tido mais cautela. Poderíamos, em 2003, ter atacado as causas imediatas da epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave, em inglês), cujo agente era um coronavírus: mercados abertos onde os animais comercializados são confinados em condições precárias. Não fizemos isso e uma das razões é que a epidemia desapareceu cerca de sete meses após seu início, deixando para trás 774 mortos. Foi um alívio acompanhado da inércia que dificulta a mudança, principalmente quando há significativos interesses econômicos em jogo. A epidemia desapareceu, assim como os recursos para fazer pesquisas sobre coronavírus. Aparentemente, não haveria no final da linha um produto rentável, para uma doença existente, e o investimento minguou. Estudos sobre as possíveis conexões entre a SARS e a degradação ambiental também não se desenvolveram.
Agora, o mundo está entrando numa nova fase, assim dizem os mais otimistas e também os mais pessimistas em relação à pandemia. Os otimistas acreditam que este momento único, de desaceleração do planeta, deve nos conduzir a reflexões sobre nossa forma de estar no mundo e nossas relações com a natureza. Já os pessimistas, embora sabendo que o momento é extraordinário, imaginam também que o capitalismo é mestre em se reinventar para que tudo permaneça igual. O resultado seria, pois, um mundo ainda mais cruel, desigual e perverso.
 “Descoronizar o mundo”
Em um artigo recente, com o sugestivo título de “Descoronizar o mundo, descolonizar o imaginário”, João Peres diz que o pavor do capitalismo diante da quarentena é que as pessoas descubram que podem ser felizes de outras maneiras, sem tanto consumo e sem tantas amarras aos seus papéis, afinal “os últimos três séculos foram construídos em cima da ideia de que só existe um jeito certo de se viver.” E eu diria mais: esse “jeito certo de se viver” colonizou nossos imaginários de tal maneira que estamos encurralados entre a falta de criatividade para imaginar um outro mundo possível e a introjeção, a ferro e fogo, desse “jeito certo de se viver” até mesmo entre aqueles que são as maiores vítimas desse mundo capitalista, tal qual conhecemos.
Há quem diga que o mundo nunca mais será o mesmo… para o bem e para o mal. Não se trata apenas de entender que vivemos um momento extraordinário e que isso é uma “janela de oportunidade”, como se costuma dizer. Para que haja mudanças de fato, é preciso entrar seriamente na disputa do imaginário de futuro e desenhar outros caminhos, concretos, onde as pessoas possam se enxergar. Se outros mundos possíveis não forem delineados e apresentados como alternativas neste momento, a “janela de oportunidade”, que já parece uma pequena escotilha, será fechada e continuaremos a contemplar uma parede de aço escovado, por onde não parece haver saída.
Paralelamente, o complexo corporativo do “vamos-mudar-tudo-para-garantir-que-nada-mude” já está disputando esse futuro, tentando mostrar, em cores idílicas, que podemos ter de novo o que tínhamos e bloqueando qualquer pensamento crítico. Se, por um lado, alguns regozijam-se com a recuperação de sua autonomia, cozinhar, limpar, cuidar de si e por si mesmos, a maioria lamenta essa situação e anseia pela volta à dependência habitual. Poucos são os que acreditam que é possível viver bem sem o consumo nosso de cada dia…
Por mais que apontemos as conexões entre o coronavírus e a forma predatória com que nos relacionamos com a natureza; por mais que demonstremos que as mudanças do clima da Terra multiplicarão as tragédias cotidianas, como enchentes, secas, fome, migrações e doenças; por mais que insistamos que nosso volume de produção e consumo é escandaloso e suicida, nada adiantará se não houver propostas claras, atraentes e factíveis.
A luta para manter a floresta em pé, o Cerrado vivo, os oceanos limpos, a biodiversidade íntegra e o clima estável só pode ser ganha se pudermos imaginar um mundo do qual essas coisas façam parte, não como cenário ou como recursos para nossa sobrevivência, mas como integrantes de um conjunto do qual também pertencemos e sem o qual nada seremos. Para tanto, precisaríamos de um mundo onde as árvores da Amazônia fossem mais importantes que o lucro imediato do garimpo; onde a vida dos povos indígenas fosse mais relevante do que campos de soja e pastos; onde a água pura dos rios valesse mais do que os diamantes; onde a pureza do ar significasse mais do que o status das viagens sem fim, nem finalidade; onde o último celular e o carro do ano fossem inadmissíveis diante das ameaças à integridade dos ambientes e ao bem-estar de todos. Mas muitas mudanças precisariam acontecer para chegarmos a esse ponto.
 Propostas alternativas
Algumas propostas têm surgido. Por exemplo, líderes europeus criaram a Aliança Europeia para uma Recuperação Verde que deve nortear a reconstrução econômica do continente. A ver se haverá ideias transformadoras. Grupos da sociedade também vêm propondo alternativas tangíveis, como os franceses, utilizando um nome em inglês, Wings of the Ocean, que propõem que os recursos a serem investidos na indústria aeronáutica francesa sejam gastos em setores essenciais da vida humana, como saúde, alimentação, transporte de baixo carbono e agricultura orgânica, promovendo uma vasta transição na sociedade, tanto de hábitos, como também de profissões e postos de trabalho. Há várias outras, mas ainda assim a tal janela de oportunidade parece cada dia menor.
O mundo só pode se transformar com muito esforço. Talvez mesmo este momento tão extraordinário não seja um gatilho suficiente para mudança. Nosso comportamento carrega um gigantesco componente inercial, o que torna as mudanças rápidas improváveis. O presente é uma máquina de fazer futuros, mas o presente também é um reflexo do passado, onde ele foi talhado como futuro. Se não nos lançarmos por essa pequena escotilha que já parece se fechar, em busca de uma nova possibilidade de mundo e disputando o futuro pós-pandêmico até as últimas consequências, não haverá outro mundo possível, o presente delineará um futuro com mais do mesmo e saberemos que, como espécie, perdemos.
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Nurit Rachel Bensusan é doutora em Educação pela Universidade de Brasília, mestre em Ecologia também pela UNB, pós-graduada em História, Sociologia e Filosofia da Ciência pela Universidade Hebraica de Jerusalém, e graduada em Engenharia Florestal (UNB) e em Biologia (UNB). É coordenadora da área de Biodiversidade no Instituto Socioambiental (ISA) e, paralelamente, trabalha com políticas públicas, divulgação científica na área de conservação da biodiversidade e pesquisa sobre temas relativos à conservação das paisagens, ao acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais e aos impactos e dilemas das novas biotecnologias. É autora de livros como “Conservação da Biodiversidade em áreas Protegidas” e “Meio ambiente: e eu com isso?”, entre outros.

Publicado no blog do Instituto Social Ambiental (ISA), em 30 de abril de 2020.

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