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A contagem dos mortos, por Saidiya Hartman

A contagem dos mortos

Saidiya Hartman

Sento em minha escrivaninha fingindo que estou me preparando para a aula, relutantemente cumprindo a demanda da universidade para continuar como se tudo permanecesse igual. Meus alunos também estão lutando. Essa semana, dois deles perderam pais e pessoas queridas para o vírus. Estou lendo “The black shoals” para um seminário de pós-graduação sobre a história do confinamento. Uma frase se aloja em minhas entranhas: “A vida cotidiana é marcada por grotescos interlúdios com a morte de pessoas negras e indígenas nas ruas ou nas planícies”. Tento passar dessa frase sobre o caráter cotidiano da catástrofe, a morte corriqueira de negros e indígenas, na pandemia do covid-19. Como se navega através das escalas de morte? Avaliam-se as distinções entre as centenas de milhares de crianças que morreram no Iraque, como resultado do embargo americano, e as centenas de milhares que morrerão do coronavírus? Muitos de nós vivem uma catástrofe rotineira, o estado de emergência cotidiano, a distribuição social da morte cujo alvo são aqueles considerados descartáveis, remanescentes e excedentes. Para aqueles normalmente privilegiados e protegidos, o terror do covid-19 é sua violação e indiferença à distribuição usual da morte. No entanto, mesmo nesse caso, a repartição do risco e o ônus da exposição mantêm uma fidelidade às distribuições de valor estabelecidas.

Parece que até mesmo um patógeno discrimina, e os vulneráveis ficam ainda mais vulneráveis. A saúde dos cuidadores, entregadores,  porteiros e zeladores, trabalhadores da construção civil e de fábricas, babás, funcionários de almoxarifados, caixas – ou seja, os trabalhadores essenciais de baixos-salários que suportam o peso da reprodução social, de atender e cumprir nossas necessidades e desejos. Existem os riscos de viver quando se é pobre, quando se está abandonado e encurralado nas grandes quadras dos conjuntos habitacionais, quando se está preso em favelas, confinado em prisões e centros de detenção. Agora o mundo está confinado, também. Os condenados da terra tentam sobreviver, mesmo que o abrigo em casa seja impossível ou não apresente realmente proteção, já que a aglomeração, mais do que o isolamento, é como normalmente vivemos e sobrevivemos. O doméstico também pode ser um local de violência.

A linguagem da guerra definiu a pandemia. O jornal The New York Times observa: “Mais mortes do que nas guerras da Coréia e do Vietnã juntas”, embora a implicação seja que apenas as mortes de soldados americanos contam, não o número de mortos de três milhões de vietnamitas. É um registro exclusivo de perdas. Depois, há as guerras escondidas pelo caráter normalizante de sua descrição social e pelas formas de violência mascaradas pelas categorias aparentemente neutra. Pelas “condições prevalecentes” que anunciam a existência cotidiana à beira da catástrofe e do desastre esperado. As guerras conduzidas pelo Estado contra os governados somem de vista.

Leio o artigo no The New England Journal of Medicine sobre a pandemia na Itália, especificamente sobre o desafio de tratar a falência respiratória devido à escassez de respiradores. A questão que o artigo tenta responder é: como os médicos decidem quem vive e quem morre? O que determina quem vai ser cuidado e quem vai ser deixado à morte? Quais são os protocolos? Os médicos evitam a pergunta porque os deixa desconfortáveis; é algo que eles preferem não discutir porque vai apenas assustar o público. Qual esquema de valor determina o racionamento da vida e a repartição da morte? O cálculo envolvido na distribuição social da morte e no fazer e policiar a divisão entre vidas valorizadas e vidas descartáveis define o próprio significado do capitalismo racial; morte prematura e violência gratuita tornam a vida uma aspiração e uma impossibilidade.

Enquanto leio à procura de uma resposta que não está no artigo, escuto meu parceiro e minha filha comemorando porque ela resolveu um problema matemático muito difícil sobre parábolas e equações. A sala de jantar é agora uma sala de aula em casa. Uma parábola não é o mesmo que uma curva que prevê as taxas de infecção e mortes aceleradas. Uma parábola que alcança o infinito soa como um poema, diferente da curva e seu perigo.

A pergunta que os médicos preferem evitar no artigo no The New England Journal of Medicine me amedronta mais do que o vírus. Triagem é a resposta à crise, uma crise exacerbada nos Estados Unidos pelo estado “sem estado” e pelo capitalismo, pelo racismo e pelo nacionalismo branco, por mentiras e mais mentiras, por má administração, por opção pela morte, pela falta de um sistema universal de saúde. Na hierarquia vertical da vida, ocupo o degrau mais baixo. A medicina tem uma história perniciosa de racismo. Mesmo quando os hospitais não estão sobrecarregados e não há falta de equipamentos, eu não sou uma prioridade.

Como documentam estudos empíricos, o sistema de saúde é rotineiramente indiferente ao sofrimento negro, duvidando da sensciência compartilhada dos corpos com dor, questionando se o humano é uma categoria expansiva ou excludente, e mesmo se o corpo negro é percebido como humano. Quem vive e quem morre? Temo a resposta para essa pergunta. Acho que sei qual é.

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Saidiya Hartman (1961) é escritora norte-americana e professora na Universidade de Columbia. É autora de livros como Lose Your Mother: A Journey Along the Atlantic Slave Route (2007) e Wayward Lives, Beautiful Experiments: Intimate Histories of Social Upheaval (2019), este último vencedor do National Book Critics Circle Award.

Texto publicado no projeto Quarantine files, Los Angelos Review of Books, maio de 2020. Tradução de Catarina Lins.