A ansiedade, por Mariana Enríquez

A ansiedade
Mariana Enríquez

Mando uma mensagem. Preciso resolver um problema administrativo de trabalho. Respondem e resolvem mais ou menos rápido, e a pessoa que me atende acrescenta, antes de se despedir, “ISTO parece um dos seus contos”. ISTO é a pandemia, claro. Respondo com um lacônico “obrigado”, sem fazer nenhuma referência à observação sobre meus contos que, de fato, são de terror. Não sei o que dizer para ela. Quase o tempo todo não sei o que dizer e constantemente me pedem que diga alguma coisa. Uma coluna sobre como passo o confinamento. Uma opinião sobre a natureza mutante do vírus. Se acho belas as cidades vazias e retomadas parcialmente pelos animais. Tudo é contraditório e angustiante. Um escritor, um artista, deve poder interpretar a realidade, ou pelo menos tentar. Como alguém que trabalha com a linguagem, deveria colaborar na discussão pública. Pensando, escrevendo, interpretando. Mas a cada dia que passa, pensar nessa pandemia se torna uma neblina espessa: não vejo, estou perdida, só consigo distinguir minhas mãos se as estendo.
A escritora Carla Maliandi comenta no seu facebook que o filósofo Karl-Otto Apel, amigo de sua família, contou para eles, entre uma e outra empanada, que “durante a segunda Guerra Mundial teve que fazer o serviço militar na Alemanha. Sua tarefa era patrulhar as ruas dentro de um tanque, enquanto do lado de fora bombas explodiam e o mundo era o próprio inferno. Disse que esse foi um momento muito importante de sua formação e que graças a essa reclusão pôde ler e estudar pela primeira vez Aristóteles, Kant e Hegel.” Ela se pergunta como é possível tal concentração ao ler que vários escritores dizem que não conseguem ler, nem ver filmes, ficam ansiosos e hiper-atentos e passam metade do tempo em chamadas por vídeo ou checando se os familiares e amigos precisam de alguma coisa. Por que tenho que ser intérprete desse momento? Por que escrevi alguns livros? Fico rebelde diante dessa exigência de produtividade, quando só sinto desassossego.
Poder, poder, poder, que podemos fazer, que podemos pensar. Em uma conversa com uma amiga disse a ela, sinceramente: “penso curto”. É verdade. Não encontro reflexões. Encontro: como (não) usar o aplicativo dos bancos que oferecem sistemas hostis, não atendem o telefone e são implacáveis na cobrança das contas. Encontro: como evitar o medo cada vez que meu companheiro sai para comprar a comida de que precisamos. Que faço se ficar doente. É muito pouco provável que isso aconteça, digo para mim mesma e dizem os especialistas. Tudo que eu repito não serve para nada e tenho horror que ele termine em um hospital de campanha. Ou que minha mãe termine lá. Um outro jornal me manda uma série de perguntas para responder. “Que medos o isolamento provoca? Traz qual trauma? O que vai acontecer com a humanidade? Como vamos construir a nova normalidade?” Todas as perguntas me deixam muda. Todos os traumas, todos os medos, não sei o que vai acontecer com a humanidade, como pensar na “humanidade”, isso significa o que, por que temos que pensar em uma nova normalidade se a pandemia está só começando, ao menos na Argentina. Todas essas palavras que escuto, todo esse ruído de opiniões e dados e metáforas e recomendações e lives no instagram e a continuidade das atividades em formato virtual, toda essa intensidade não seria, na verdade, puro pânico? Que buraco se tenta tapar? Qual fantasia de extinção?
Penso nos insetos escapando da mão que empunha o veneno. Essa barata que corre, corre e consegue se esconder atrás da máquina de lavar. Sinto como se acabasse de ter um acidente de carro.  Vejo como sai fumaça do motor, cheira a queimado, não sei se haverá uma explosão ou não, todo o corpo dói porque a batida é muito recente e do outro lado do janela, vinte pessoas me perguntam: “Vai comprar um carro novo? Será que se pode consertar esse? Vai poder ter uma vida normal se tiver a perna amputada? Será que sobreviveram os que estavam no carro que bati? Ficarão sequelas e você vai ajudar economicamente? Vai pagar o enterro dos que morreram? Seu filho que estava no assento a seu lado usava o cinto de segurança?” É assim todos os dias. Às vezes consigo sentir alguma coisa que me excede em outro sentido, não o que desborda do cotidiano. Algo sublime, profundo. Um silêncio no mundo causado por esse agente que não está vivo nem morto, que precisa de um hóspede para viver até que se cansa dele ou o mata. Certa irmandade global. Dura pouco. Tenho medo de ter uma apendicite, que não me operem, e de morrer porque as camas estão ocupadas pelos pacientes do coronavírus. Tenho medo de ser terrivelmente mesquinha e pouco solidária. Tenho medo de ver nas ruas da periferia de Buenos Aires as mesmas cenas de Guayaquil, os cadáveres nas ruas, as pessoas sufocadas se arrastando nas salas de emergência, o homem que deixou sua mãe morta em um banco e usou um guarda-sol para proteger o corpo envolto com um pano colorido. Os caixões de papelão. Não quero passar por esse horror de maneira nenhuma, nem como espectadora nem como testemunha nem como cronista nem como vítima. Às vezes me levanto e acho que viver assim não vale a pena, depois me digo que tudo passa, que sempre que choveu parou, que os vírus têm ciclos, que as pandemias acabam, que as vidas se reconstroem. Ontem eu me alegrava por ter vivido tudo intensamente, todas as viagens, todos os concertos, todas as drogas, todos os amantes. Como se estivesse me despedindo do mundo. Esse estado é de luto. Mas não sei bem quem está morrendo. Ou se está morrendo. Não sei.
Continuam me perguntando, e eu não sei. O que eu leio? Nada. Comecei, porque tele-trabalho de casa, a “Condessa sangrenta” de Valentine Penrose, e a história da espantosa Erzsébet Báthory me entretém, talvez porque viveu em um mundo terrivelmente mais cruel e mais difícil, com doenças atrás de cada árvore, com bruxas pelo bosque que sequestravam crianças para fazer filtros com seus corações. Vejo o quê? “Twin Peaks”, porque submergir em um pesadelo alheio é uma estranha espécie de alívio. Nada de muito mais: o resto do tempo fico no telefone ou na frente de telas ou trabalhando em uma lentidão assombrosa ou lendo notícias até enlouquecer. Sei que devia ler menos notícias e que toda essa informação não serve para nada, mas dá alguma ilusão de controle e além disso não se fala de outra coisa e, desculpe, não tenho presença de espírito nem distância nem ânimo para ler Eurípides. Admiro os que se sentam com “A montanha mágica” e os que aprendem receitas e sobretudo com os que se entediam. Não tenho caráter. Não tenho fibra para isso. Talvez esteja deprimida: a terapia nesse momento é também virtual e não sei se me atrevo a começar uma medicação hoje, já que o conselho é de não chegar perto dos hospitais. Também: minha própria crise emocional parece idiota. É idiota. Estou em um canto, de joelhos, esperando isso passar, que vá embora, se apague.
Não fui feita para crises. Me lembro de outras. 2001-2002: um ano ou mais cobrando a metade do salário e vivendo com minha mãe em uma favela perigosa; toda noite escutava tiros e, se ficava tarde, ia correndo até a avenida para comprar cigarros porque os roubos eram comuns mas também poderia me ver no meio de um tiroteio. A adolescência com hiperinflação, 1989, crise energética, cortes de luz, pais sem emprego, dormir em uma sofá porque não tinha minha própria cama e não tinha dinheiro para comprar nem onde pôr. Tem mais, algumas pessoas que não faz sentido nem quero tornar públicas. Nenhuma me preparou para isso? Nenhuma me preparou para isso. Chega outro email, outra entrevista, outra mensagem. Que penso disso como escritora de terror. Como se resignifica o medo. Queremos sua opinião sobre o medo que todos sentimos. Busco ser irônica e tento umas breves linhas: que as pandemias são o terreno da distopia, que eu não escrevo nesse subgênero, que gosto mas não li muito (é a verdade). Apago o que escrevi. É uma bobagem. Leio um artigo fabuloso do pintor e escritor Rabih Alameddine sobre quando soube do diagnóstico de hiv positivo. Ele vivia em São Francisco mas na sua terra natal, o Líbano, rugia uma guerra civil; decidiu voltar, apesar disso, porque sentia medo e não queria morrer sozinho. Em pouco tempo estava de volta na Califórnia. Começou a jogar futebol. Metade do seu time morreu. Ele continua vivo, e diz que não lembra quantas pessoas viu morrer.
Lembro os dias terríveis da aids, eu era muito menina, lembro do medo no bairro dos possíveis infectados, lembro dos amigos da minha mãe que morriam sozinhos, porque, além de tudo, eram rejeitados por suas famílias. Aquilo foi muito cruel. A coragem deles. Minha vergonhosa covardia. Penso nas vítimas dos tsunamis, das guerras, dos naufrágios no Mediterrâneo, do narcotráfico, da violência institucional, de outras epidemias, da fome. A morte massiva e trágica e solitária é a regra. Me dou conta do meu privilégio. Tenho vergonha desse privilégio, especialmente nesse continente. Não posso sair da auto-referência e isso me deixa deprimida, porque procuro evitar o eu eu mim mim. Queixar-se é patético. Não me queixo em voz alta. Tento, mas essas palavras devem ser uma queixa. Serve esse texto? É exagerado? Por que dizer: não posso dizer? Aqui fala só minha ansiedade. E a sensação de iminência. É possível que hoje eu seja feita só de ansiedade. Me deixa muda e imóvel na poltrona, fechada. Não na minha casa, isso não importa. Fechada na minha cabeça.
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Mariana Enríquez é escritora e jornalista argentina, uma das principias representantes da literatura contemporânea de seu país. No Brasil, publicou os livros “As coisas que perdemos no fogo” (2017) e “Este é o mar” (2019).
Texto publicado na Revista da Universidade do México, 13 de abril de 2020.  Tradução de Eduardo Jardim.

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